— Isso não vale, Marcela!
Marcela olhou com cara de genuína surpresa — Não vale o que?
— Esse adesivo é de camelô. O meu, a mamãe comprou na loja. Não posso trocar — cruzou os braços e sacudiu a cabeça, indicando claramente que a resposta era definitiva.
— Ué? Mas você não tem a Cindy™ do cavalinho dourado!
— Mas eu quero a da loja.
— A da loja eu não tenho. Você tem que trocar por esta aqui mesmo — desta lógica implacável, a outra não teria como escapar.
— Não vou trocar não. Vou trocar com a Regina, que ela tem um cavalinho dourado de verdade, repetido.
A Regina? Aquela metidinha da 505? — Ela nem fala com você. Ela é chata. Ela não vai trocar o adesivo — já era uma tentativa de evitar que até Lúcia, sua melhor amiga entre as poucas que tinha, se bandeasse para o grupo da popularíssima rainha do turno matutino. Até cerca de metade do ano anterior, Regina não era nada diferente de qualquer outra garota da escola. Da noite para o dia, passou a ter todas amigas que uma aluna do ensino fundamental poderia querer. Não custava que roubasse mais uma e isso Marcela queria impedir de qualquer jeito — Ela não gosta de você.
— Acho que é de você que ela não gosta. Olha a sua sandália — e Marcela olhou imediatamente para os calçados — É tudo sujo; velho. Seu uniforme é todo manchado — e Lúcia quase completou falando sobre a pobreza da outra mas parou antes — A Regina não gosta disso.
Os olhos de Marcela já estavam cheios de água, mas a custo ela ainda evitava as lágrimas — A Regina não gosta de você também. Ela só gostou de você depois que foi na sua piscina; depois que viu sua casa é que ela gostou.
— Eu gosto quando ela vai lá em casa. A mamãe também gosta muito dela — e obviamente não gostava de Marcela na mesma medida. Regina não era rica, mas sua família era muito bem situada. Além disso, a menina tinha cultura, etiqueta, charme e sofisticação mais que surpreendentes para alguém de sua idade. Uma companhia perfeita para Lúcia. Já Marcela...
— Se ela chegar perto de você eu quebro a cara dela.
— Quebra nada. Ela é maior que você. E se você ficar falando essas coisas, a Carina, a Simone e a Cláudia te pegam também. Sem contar o Mauro.
— O Mauro não é amigo dela.
— Mas é namorado da Simone. Se você fizer alguma coisa com a Regina, a Simone pede ao Mauro pra te pegar.
De fato, era difícil atacá-la. Parecia haver sempre um pequeno exército patrulhando os arredores da menina, pronto para defendê-la de qualquer ofensa. Marcela resolveu voltar para o lado mais pessoal — Você não pode ser amiga dela. Eu era sua amiga primeiro. Quando você quebrou o braço fui eu que levei o material todo na sua casa.
—Marcela, você é minha melhor amiga, você sabe. Mas não tem nada a ver, isso. Eu sou sua amiga e sou amiga dela também.
Isso já era humilhação demais. Lúcia ainda era a única coisa que Marcela tinha e Regina não. E agora nem isso! Não havia mais nada em que Marcela pudesse se considerar superior. As lágrimas finalmente desceram — Eu pensei que você fosse minha amiga! Mas não é nada! — largou a outra com seu álbum e as figurinhas no banco da praça e saiu andando rápido por uma trilha.
Lúcia tentou juntar as coisas para ir atrás da amiga, mas as figurinhas caíram no chão — Marcela! Espera aí! Marcela, volta! — mas a outra já tinha se embrenhado pelo bosque que ficava mais adiante.
Nunca mais iria olhar na cara de Lúcia. Na verdade, queria que Lúcia morresse. De câncer, se possível. No cérebro, como havia morrido uma de suas primas dois anos atrás. Não tinha uma idéia exata do que era morrer de câncer no cérebro, mas a forma sombria como todos da família se referiam à doença indicava que era um jeito bem horroroso de ir embora. Então era isso que queria para Lúcia, Regina, as meninas, todas as turmas de 5ª série; a escola toda, na verdade.
A menina caminhava tão absorta em sua raiva que não percebeu uma vespa que a acompanhava enquanto seguia a trilha. A vespa pousou em suas costas sem que percebesse e andou sobre sua blusa até encontrar um ponto de pele exposta. Lambeu a pele da garota, o que a fez coçar-se no lugar. A vespa pulou rápido para o ar antes que os dedos a atingissem.
Nesse meio tempo, Lúcia já havia reunido as coisas e, correndo, conseguiu alcançar a outra — Pára, Marcela. Vamos conversar.
— Já conversamos tudo. Não quero mais saber.
— Que vacilo, Marcela! Deixa de ser besta — segurou a amiga pelo braço.
— Quer apanhar também? — e falava sério. Poderia muito bem arrancar a mão de Lúcia, naquele instante.
— Não. Só quero falar com você.
— Já falou! Já falou tudo; não enche... AAAAAAAI!
A vespa! Havia retornado ao ponto e cravara o ferrão profundamente na menina.
— Ela me mordeu! — gritou e seu choro aumentou com a dor.
— Deixa eu ver — o calombo era enorme e muito vermelho; pequenas saliências se irradiavam do ponto central e percorriam a pele em várias direções. Do centro, vazava um líquido meio viscoso. Era um ferimento de assustar — Caraca! Tá muito feio. Vem, Marcela; a gente tem que ir embora.
— Ta doendo muito. Eu não consigo andar direito — de fato, cada passada parecia se refletir na ferida. Marcela sentia até sua pulsação no entorno da picada — Me ajuda, Lúcia. Me ajuda. Tô com medo!
— Vem, Marcela. A gente tem que chamar alguém.
— Não consigo — aos poucos a dor ia passando e em seu lugar foi surgindo um certo entorpecimento. Marcela experimentou uma sonolência muito forte, mas que não chegava nunca à inconsciência. As coisas começaram a ganhar um certo brilho, as árvores estavam crescendo e se afastado, o chão ficou macio e depois desapareceu por completo — Lúcia, eu tô ficando cega. Não consigo andar — falava com a voz mole e fraca, como se falasse durante o sono. Agachou-se e sentou no chão, não conseguindo mais se levantar apesar dos chamados de Lúcia.
— Eu vou chamar o guarda, Marcela, tá bem? Fica aqui que eu já volto — e saiu correndo. Marcela não conseguiu responder. Apenas ficou olhando a amiga se afastar até sumir no meio da confusão que via nas coisas. A vespa retornou e voava ao redor de sua cabeça, mas parecia cada vez menos com uma vespa. Aliás não era mais uma vespa de jeito nenhum. Tonta como estava, Marcela não distinguia bem o que era, mas tinha certeza de que não era uma vespa.
O guarda veio e Marcela foi levada a um hospital enquanto seus pais eram avisados. A reação alérgica à picada era muito forte. Marcela tinha febre e delirava apesar da medicação potente com que estava sendo tratada. Devido à sua condição clínica, ela teve que passar a noite no hospital em tratamento intensivo. Para alívio de sua família, apesar do estado bem grave, pelo menos seu quadro físico era estável, sem taquicardia nem elevação da pressão sanguínea.
Às três e quinze da manhã, a enfermeira encarregada havia terminado mais uma de suas rondas. Tudo estava tão tranqüilo quanto pode estar em uma UTI. Podia aproveitar os próximos vinte minutos para um cochilo. Se alguém passasse mal naquele intervalo, era bem-feito. Havia escolhido a hora errada.
Marcela dormia um sono agitado. Sonhava com coisas estranhas, lugares que não conhecia e pessoas que nunca havia visto. Às vezes acordava, mas parecia não haver diferença entre estar desperta ou dormindo. Numa das vezes em que parecia estar sonhando, ela viu de novo a vespa. Só que desta vez haviam muitas outras acompanhando seu vôo. Finalmente, Marcela conseguiu observar o inseto com atenção, pois este havia se aproximado bem de seus olhos. O brilho ao redor do bicho atrapalhava um pouco a visão, entretanto era possível observar claramente a figura. O corpinho era gracioso, com uma cintura finíssima e perninhas de coxa grossa. O rosto era delicado e os olhos brilhavam como um arco-íris. Marcela sabia muito bem o que era aquilo. Já vira aquela figura em um milhão de estampas, álbuns de colorir, filmes, figurinhas autocolantes e livros infantis.
Era uma fada.
Há algum tempo, os pais de Marcela, seguindo os melhores ditames do que pensavam ser uma boa educação, vinham desestimulando suas experiências com coisas imaginárias. Não que reprimissem seus devaneios; apenas procuravam não reagir a eles. Evitavam que qualquer conversa se estendesse nessa direção e sempre tentavam introduzir algum elemento racional no meio do assunto, se ela insistisse. Para a menina, era muito contraditório que os pais, sendo religiosos, pudessem acreditar em um Deus que ninguém pode ver e em seu livro de histórias antigas, ao mesmo tempo em que achavam uma infantilidade acreditar em monstros debaixo da cama, mulheres vestidas de branco no banheiro da escola ou fadas e duendes nos bosques. Entretanto Marcela adorava os pais e percebia que não estavam preparados para aquele tipo de questionamento. Não queria entrar em conflito com eles e passou a evitar qualquer referência ao assunto quando estavam juntos. Na concepção deles, isso era ótimo: sinalizava o amadurecimento da filha. E na verdade, pela falta de estímulo positivo, aos poucos a fantasia da menina estava realmente ficando menos ativa e ela já começava a permitir que as questões mundanas sufocassem o seu universo interior. Mas no fundo, naquele canto do coração onde a criança brinca de se esconder do adulto, ainda vivia em Marcela aquela crença quase ingênua da existência de mais coisas no mundo do que os olhos podem ver. E naquele momento, enquanto olhava aquela bonequinha flutuante diante de si, Marcela ouvia o grito de triunfo de sua própria imaginação: era tudo verdade! As maravilhas que conhecia desde que era muito mais nova (e, infelizmente, os pesadelos também); tudo era verdade. A prova estava ali, a poucos centímetros de seu rosto.
A fada voava com leveza quase impossível e dava pequenas cambalhotas no ar. Marcela estendeu a mão e a criaturinha pousou em seu dorso e olhou a menina bem de frente — Oi, Marcela.
Falava! Ela falava! Era maravilhoso demais para acreditar.
— Oi — e Marcela não disse mais nada. Que besta! Bem ali estava a coisa mais fantástica que existia e ela só sabia dizer “oi”. Ninguém merece! Ser besta assim, ninguém merece.
— Finalmente consegui te encontrar!
— É? — ai que vontade de morrer. Que estúpida!
— É sim. Faz tempo que estou procurando.
— Me procurando? — uma fada procurando por ela? Era sensacional demais!
— Sim, querida. E você não sabe como foi difícil.
— Deve ser porque o hospital é longe da praça — finalmente sua anta. Conseguiu dizer alguma coisa que preste.
— Não, querida, não é disso que estou falando. Agora que você tem o meu beijo, eu sei onde você está em qualquer lugar da Terra. Eu quis dizer que foi difícil encontrar alguém para receber o beijo que dei.
Beijo? Não se lembrava de beijo nenhum, ainda mais de fada — Você me beijou? Quando?
— Hoje, perto da minha casa.
— Eu passei perto da sua casa?
— Passou sim. Você passou correndo e depois veio sua amiga.
— Mas eu não senti esse beijo.
— Sentiu sim, querida. Você sentiu dor e depois ficou com sono. Depois veio para cá.
— Aquilo foi beijo? Não foi uma picada de vespa?
A fada assentiu com a cabeça — Meu beijo.
— Beijo esquisito. Dói.
— Dói sim. Mas você não estava acostumada. Se deixar eu te beijar novamente, vai achar muito gostoso.
— Não vai doer?
— Vai sim. Eu não disse que não ia doer. Eu disse que seria gostoso.
— Mas como pode doer e ser gostoso?
A fadinha riu, jogando a cabeça para trás — Querida, ainda tem tanta coisa para você descobrir — olhou para a mão da menina, onde estava pousada e depois olhou de novo para o rosto — Crescer é descobrir. Por isso é que é gostoso crescer. Você mal passou dos dez anos de idade e já está doidinha para ser gente grande. Não porque quer ser adulta: o que você quer é tornar-se adulta. E isso dói. Mas acho que até aí você já sabe, não é?
Marcela sentiu um certo assombro por ouvir traduzido em palavras simples, um sentimento que refletia tão bem o que se passava dentro de si. Ou talvez fosse só a febre. Quem sabe?
A fadinha voou para o alto e olhou ao redor. A enfermeira estava deitada no último leito da UTI e roncava um pouco. O outro plantonista estava sentado à mesa na entrada da unidade e assistia a algum programa na TV. O único outro ruído alem disso vinha dos monitores ligados aos pacientes. A menina percebeu que havia uma fada voando sobre cada um deles. De vez em quando, uma descia, caminhava um pouco sobre o paciente que observava e depois voava de novo.
A fadinha retornou para sua mão — Querida, nós temos que ir embora. Seria perigoso manter as outras pessoas inconscientes por mais tempo. Antes de ir, quero te perguntar uma coisa: o que você sabe sobre as fadas?
Pergunta difícil — Sei lá. Vivem nas florestas..., voam..., comem flores, realizam desejos. O que mais?
— Hi, hi, hi, hi, hi! — a risada era fininha e estridente — Realizam desejos! Essa é boa. Hi, hi, hi, hi!
—Tá rindo de que? As histórias contam que as fadas realizam desejos. Especialmente se forem fadas-madrinhas.
— Fadas-madrinhas? — a fadinha olhou para ela com a melhor cara interrogativa que conseguia fazer — Hum... não sei o que isso quer dizer. Mas não importa: esqueça o que você pensa sobre as fadas. O que me levou a procurar você é o fato de que preciso de sua ajuda.
Aquilo era estranho. Marcela não se lembrava de nada parecido nos contos que havia lido. As fadas eram sempre partes ativas e insondáveis como forças da natureza, intervindo quando e como queriam na vida das pessoas. Não se lembrava de nenhuma fada que pedisse ajuda para alguma coisa. Mas apesar de levemente decepcionada por entender que não ia ganhar nenhum presente maravilhoso, ela começou a achar excitante a perspectiva de que pudesse fazer algo de que aquela criatura mágica pudesse precisar.
— Eu vou te ajudar como?
— Quero que você seja minha filha.
— Filha?! Não tira onda da minha cara.
— Eu quero que você seja minha filha. Não tenho muito mais tempo para encontrar quem possa. Achar você já foi um golpe de sorte e tive que me apressar para que a chance não fosse embora.
— Mas como é isso? Eu já tenho mãe.
— E continuará tendo, querida. Só que vai ter mais uma.
— Eu vou ser uma fada?
— Um dia, querida. Daqui a muitos anos, depois que você for vovozinha e tiver seus netinhos já crescidos. Depois disso seus olhos vão se fechar para sempre. Mas você vai nascer de novo de um jeito diferente. Você vai ser uma fada.
— Mas isso vai demorar muito! Não posso ser fada agora?
— Poderia sim. Mas que tipo de fada você seria? Eu disse que há muita coisa ainda para você viver e aprender.
— Eu posso aprender tudo já sendo uma fada, ora.
— Infelizmente, muita coisa você não poderia mais aprender. Conviver com as pessoas, por exemplo.
Marcela sabia que era verdade. Se ela fosse uma fada, só poderia ter contato com poucas pessoas em quem pudesse confiar. Se algum estranho a visse, ela ia acabar sendo cobaia em algum laboratório militar secreto, desses que se vê em filmes.
— A mamãe não vai gostar.
— A mamãe não precisa saber. Além disso, quando acontecer a transformação, sua mamãe já não estará mais aqui.
A menina pensou na prima morta e assustou-se. De repente as coisas ganharam um tom muito sombrio — Não quero que a mamãe vá embora. Ela tem que ficar.
A fada suspirou e fez uma cara triste — Ninguém deveria ter que partir. Eu também me lembro de minhas mães: a mãe-gente e a mãe-fada. Eu amava as duas. Mas o tempo veio e elas tiveram que ir embora. Fiquei muito triste mas esse era o destino delas. Também será o meu e de tudo que caminha na Terra.
— Você também teve uma mãe-gente!
— Sim. Toda fada tem uma — deu um pulo e voou até perto do rosto da menina — Mas meu tempo está acabando. Preciso saber: você quer ser minha filha?
— Não sei. Acho que tenho medo.
A fada sorriu sem graça — Eu entendo você, Marcela. Desculpe por fazer você passar por isso. Eu preciso ir agora porque ainda tenho que visitar uma outra menina que pode ser minha filha.
— Você não vai ficar chateada?
— Não, querida. Só estou com um pouco de pressa — já chamando as outras para partir.
— Espera! Quem é a outra menina?
De costas para Marcela, a fadinha sorriu maliciosa — O nome dela é Regina. Ela vai à praça, de vez em quando com aquela sua amiga Lúcia.
Regina? Virar fada?! Isso é que não! Nunquinha!
— Eu quero ser sua filha!
— Mas você estava com medo. Minha filha não pode ter medo de mim.
— Eu não estou mais com medo. Eu quero ser sua filha.
— Entenda, Marcela: se você vai ser minha filha, terá que confiar em mim e aceitar o que vou lhe dar. Você tem que amar o que vou fazer com você. Você está preparada?
Não estava, é óbvio. Mas estava menos preparada ainda para ver a outra menina voando entre as árvores do bosque — A mamãe não ficará zangada?
— Já disse: ela não vai saber. Na verdade, nem você vai se lembrar do que conversamos. É melhor assim para não interferir na sua vida.
Marcela sentiu o ânimo diminuindo — Eu nem vou saber que sou uma fada? Isso não é legal.
— Você vai saber sim. Mas só quando se transformar. Enquanto for gente, você sabe o que deve saber como gente. Depois é que vem a fada.
Marcela hesitou. Olhou os pacientes nos outros leitos — Queria perguntar o que a mamãe acha.
— Não há tempo, querida. Preciso de sua resposta agora — e disse bem devagar — ou então devo procurar a Regina. O que vai ser?
A resposta veio em um quase sussurro — Eu quero.
— Ótimo, Marcela. Eu vi que você era especial na primeira vez que nos encontramos.
A menina não recebeu a notícia com muito entusiasmo. A fada prosseguiu — Agora preciso que você se prepare. Tire sua camisola, deite-se de lado e dobre as pernas até tocar o peito com os joelhos. Depois abrace as pernas.
Nua, Marcela se colocou em perfeita posição fetal. As outras fadas vieram com rapidez. Se posicionaram ao longo da coluna vertebral exposta. Em seguida, a um só tempo, cravaram seus ferrões bem em sua medula. Ao contrário do que podia esperar, Marcela sentiu dor, mas não era insuportável, apenas incômoda. Pouco mais que beliscões e a coisa todas não durou mais que alguns segundos. Depois, novamente veio a sensação de entorpecimento. Ela nem se deu conta de que não conseguia mexer mais um músculo sequer, do pescoço para baixo. As fadas retornaram para suas posições junto aos outros leitos. A fada de Marcela foi até sua nuca e procurou um ponto certo na base do crânio. — Marcela? Marcela, está me ouvindo?
A menina acenou que sim.
— Marcela, me escute com atenção: agora é o momento em que você precisa me amar, querida. Se não for assim, seu corpo vai brigar o que vou te oferecer.
— Você vai me dar um presente? — a voz era lenta e pastosa, a boca se movia com dificuldade — Você vai me dar um desejo; é minha fada-madrinha.
— Um presente sim, criança, mas não um desejo. Seja forte, querida — o ovipositor foi colocado em posição e começou a atravessar a pele da menina. Marcela começou a chorar baixinho.
— Agüente firme, querida. Não vai demorar.
O tubo, fino como um fio de cabelo, foi empurrado até o espaço entre o cérebro e o cerebelo de Marcela sem afetar nenhuma estrutura sensível. A fada, firmemente agarrada à pele da menina, tremia o corpo com o esforço que fazia — Agora, Marcela, você tem que aceitar o que vou te dar. Você aceita ser minha filha?
Que alternativa havia? Deixar que Regina fosse? Agora que fora tão longe?
— Aceito.
— Então receba seu presente, minha filha adorada — a fada fez um esforço final e o ovo passou para o pequeno espaço preparado para recebê-lo. Imediatamente começou a ligar-se às estruturas nervosas circundantes.
A fada apertava o pescoço de Marcela com toda força que seus pequenos braços podiam fazer — Minha filha! Minha filha! Como eu te amo tanto! Minha filhinha! Eu te adoro!
As outras fadas vieram e a seguraram pelo corpo e pelos braços — Não! Se afastem, eu estou ordenando! Eu quero ficar com minha filha! Larguem! Larguem! — indiferentes, as outras a puxavam para longe da menina, fazendo com que o ovipositor saísse pelo buraco que havia cavado — Me deixem! Eu quero ficar com minha filha. Vão embora. Vão embora — gritava chorando enquanto esperneava e tentava resistir à força das outras — Marcela! Minha filha, não se esqueça de mim! Não se esqueça! Desculpe minha filha, mas não posso ficar agora com você. Quando você estiver pronta, eu vou voltar; prometo, filha — as outras a continham totalmente agora e saíram voando carregando ela embora.
A enfermeira acordou e espantou-se quando viu que havia passado do horário. Levantou-se apressada e tomou outro susto quando viu Marcela nua e naquela posição. Correu para verificar e ficou mais tranqüila quando constatou que a febre da garota havia cedido. Os monitores não indicavam nenhuma perturbação e a garota ressonava profundamente. Antes que alguém visse e as perguntas começassem, a enfermeira vestiu a camisola de Marcela e a colocou em posição normal no leito. Ela não chegou a acordar, mas cooperou direitinho com a farsa, para alívio da enfermeira.
No dia seguinte, Marcela já estava plenamente recuperada. O diagnóstico ficou sendo mesmo de uma forte reação alérgica a uma picada de inseto. Ela ainda ficou em casa, de repouso, por mais dois dias. Depois, quando os pais constataram que seu ânimo era dos melhores, resolveram que já poderia voltar para as aulas.
Para Marcela seria muito bom. Estava louca para ver as pessoas e conversar. Não havia mais aquela sensação de ser inadequada, diferente, de não ter amigos, de estar isolada; nada disso! O que sentia era uma grande expectativa pelo encontro com os colegas. Estava ansiosa para falar com Lúcia também. Afinal, havia tratado a amiga de forma muito deselegante. Ainda mais que fora Lúcia quem havia ajudado naquele incidente com a vespa. Se a amiga não estivesse perto, Marcela poderia até ter morrido, o médico dissera. Precisava se desculpar e agradecê-la.
Quando chegou ao pátio da escola procurou por Lúcia nos lugares onde costumavam se encontrar. Nem sinal. Pouco antes da chamada para o início da aula, finalmente viu a amiga. Com Regina. Marcela sorriu: quem sabe não era hora de serem amigas também? Rumou na direção das duas, mas quando estava bem próxima foi interceptada por Simone. — Onde você pensa que vai?
Marcela olhou a menina de alto abaixo antes de responder — Estou indo cuidar de minha vida. E você?
— Mas ta muito abusada! Eu falei pras meninas que não podiam te dar confiança.
— Melhor falar com elas de novo, então. Agora me dá licença — contornou a garota para prosseguir seu caminho. Mas Simone não ia deixar assim e jogou seu corpo contra Marcela. Com uma esquiva rapidíssima, ela evitou o contato da outra garota que não conseguiu frear o movimento e caiu no chão.
— Tome mais cuidado. Vai acabar se machucando — zombou.
Não muito longe dali, Mauro acompanhava a cena e não ficou contente com o desfecho inesperado. Veio tomar satisfações — O que você fez com ela? Fala logo!
— Eu saí da frente dela. Ah! E também disse para que ela tomasse mais cuidado.
— De repente ficou folgada, né? Acho que você ta querendo uns tapas.
— Taí. Até que eu apreciaria a experiência. Mas teria que ser de alguém que fosse capaz de me dar uns tapas. Que soubesse me bater do jeito que eu gosto. Não acho que seja seu caso.
— Ta querendo descobrir?
— Agora!
A molecada juntou em volta para atiçar. Alguns, principalmente as garotas, tentaram argumentar que era covardia um menino bater em uma menina. Mas a maioria ali realmente não se importava. A última coisa de que se lembrariam naquele momento eram as convenções sociais idiotas. O que queriam ver era briga. De início, Marcela já conseguiu acertar um tapa bem de frente na cara do menino. Ele tentou socá-la, mas ela esquivou-se. Perdia na força, mas ganhava na agilidade. Entretanto, ele conseguiu agarrá-la pelos cabelos e a puxou com violência para baixo, fazendo com que tombasse no chão. Já se preparava para chutá-la, mas não foi rápido o suficiente: Marcela fugiu do chute e puxou para frente, com toda força, o calcanhar do menino que estava apoiado no chão. Ele tombou de costas e a cabeça fez um barulho forte quando bateu no cimento. Começou a chorar. Ela levantou-se e chutou-lhe as bolas com toda força. Ele se encolheu virando o corpo para o lado. Seu choro fez nascer um grito quase em uníssono entre os garotos: — Veado! Veado! — Era o fim.
Marcela, com o rosto vermelho e os cabelos desgrenhados era a própria imagem do triunfo. Ia levar tempo para que alguém se aventurasse ao desafio novamente. Foi até onde estavam as meninas com quem queria falar. Lúcia estava com os olhos arregalados e respirava depressa, quase ofegante. Regina apenas olhava a cena e sorria. Marcela sorriu também. Regina apontou para a calça de Marcela. Havia um rasgo na lateral. As duas começaram a rir. Marcela chegou perto — Depois eu queria falar com você.
— Eu também quero.
— Agora, se não se importa, eu preciso falar com a Lúcia.
— É toda sua.
Marcela pegou Lúcia pela mão saiu andando majestosa no meio da roda de crianças que se abria.
Com toda deferência devida a uma rainha. (http://apraca.blogspot.com/)